Quando se fala em quilombos no Brasil, o imaginário popular muitas vezes nos leva às serras de Alagoas, ao Quilombo dos Palmares ou aos redutos negros do Sudeste. Pouco se sabe, porém, sobre a presença negra no Centro-Oeste brasileiro, especialmente em Mato Grosso, onde a história dos quilombos foi não apenas marginalizada, mas sistematicamente apagada dos registros oficiais. Ainda assim, ela sobrevive.
A presença de pessoas escravizadas em Mato Grosso remonta ao século XVIII, com a descoberta do ouro e a intensificação da colonização portuguesa na região. A mineração e a agricultura exigiam força de trabalho, e o tráfico de africanos — somado à escravização de indígenas — foi o alicerce do desenvolvimento inicial da Capitania de Mato Grosso.

Cidades como Vila Bela da Santíssima Trindade, antiga capital, tornaram-se centros de exploração com uma alta concentração de africanos escravizados, principalmente de origem banto.
É nesse contexto que surgem os primeiros quilombos. Essas comunidades, formadas por negros fugidos da escravidão, indígenas aliados e, às vezes, mestiços marginalizados, estabeleciam-se em locais de difícil acesso: matas, serras, regiões pantanosas. Seu objetivo não era apenas sobreviver, mas reconstruir uma forma de vida autônoma, com base em princípios coletivos, respeito à ancestralidade e resistência ao sistema colonial.
Entre os mais conhecidos está o Quilombo do Piolho, na região de Vila Bela, cuja existência está documentada em relatos do século XIX. Outro importante núcleo foi o atual território quilombola de Mata Cavalo, no município de Nossa Senhora do Livramento, que abriga descendentes diretos de antigos escravizados da região. Ali, ainda hoje, práticas religiosas, saberes sobre o uso das plantas medicinais, culinária afro-brasileira e tradições orais sustentam a memória de uma luta de séculos.

A invisibilização dessa história não foi acidental. Ao contrário: ela faz parte de um projeto político de apagamento da contribuição negra para o desenvolvimento do interior do Brasil. Após a abolição, muitas comunidades quilombolas foram deslegitimadas, seus territórios invadidos por fazendeiros, e suas memórias apagadas dos registros oficiais.
Só nas últimas décadas, com o avanço dos movimentos negros e o reconhecimento constitucional dos direitos quilombolas (Artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição de 1988), é que se iniciou o processo de reconhecimento legal e territorial desses povos. Ainda assim, os desafios são imensos: muitos territórios permanecem sem titulação, ameaçados por grilagens, monocultura e abandono do Estado.
Atualmente, o estado de Mato Grosso abriga mais de 30 comunidades quilombolas reconhecidas — incluindo Mata Cavalo, Chumbo, Capão Verde, Córrego da Ponte, entre outras —, e outras tantas em processo de regularização. Essas comunidades, embora diversas entre si, compartilham uma identidade coletiva forjada na resistência, na luta por terra, educação, saúde e dignidade.
Conhecer a história dos quilombos de Mato Grosso é reconhecer que a construção do estado não foi feita apenas com o suor dos bandeirantes ou com a sabedoria indígena, mas também com a força e a criatividade dos africanos escravizados e seus descendentes. Foi no compasso do tambor, no silêncio das fugas noturnas, na organização das comunidades e na persistência das tradições que esses povos ergueram suas aldeias de liberdade.