Entre os muitos povos originários que moldam a alma ancestral de Mato Grosso, dois nomes se destacam tanto pela riqueza cultural quanto pela resistência histórica: os Bororo e os Xavante.
Mesmo distintos em origem, língua e cosmologia, esses grupos compartilham um papel fundamental na formação da identidade mato-grossense e oferecem ao Brasil exemplos notáveis de organização social, sabedoria ecológica e luta pela preservação de seu modo de vida.
Os Bororo: o povo do círculo
Os Bororo, também conhecidos como Boe, são tradicionalmente habitantes da região do médio curso do rio São Lourenço, no Pantanal mato-grossense, e do Planalto dos Parecis. O etnólogo francês Lévi-Strauss, ao estudá-los em meados do século XX, ficou impressionado com a sofisticação simbólica de sua sociedade.
Sua aldeia, construída em forma de círculo, não é apenas um arranjo estético, mas a representação de sua cosmovisão: o centro é sagrado, espaço dos mortos e dos rituais, e cada habitação ao redor corresponde a clãs com funções específicas.
A organização bororo é matrilinear, ou seja, a herança se transmite pelo lado materno, e o casamento exogâmico (fora do próprio clã) é obrigatório. Essa estrutura garante equilíbrio entre os grupos e reforça laços de aliança.

Os rituais funerários bororo, um dos mais elaborados entre os povos indígenas sul-americanos, envolvem cânticos, danças, pinturas corporais e longos períodos de luto. A morte, para eles, não é um fim, mas uma transformação — o retorno do indivíduo ao cosmos.
A língua bororo pertence à família Macro-Jê, e carrega consigo uma forma de ver o mundo pautada na inter-relação entre natureza e humanidade. Para os Bororo, animais, plantas e seres humanos compartilham a mesma essência vital, uma filosofia que ecoa princípios hoje debatidos na ecologia profunda e no pensamento decolonial.
Os Xavante: guerreiros do cerrado
Os Xavante (ou A’uwê Uptabi) habitam, tradicionalmente, a região do cerrado mato-grossense, principalmente nos municípios de Nova Xavantina, São Félix do Araguaia e áreas próximas. São falantes de uma língua Jê oriental e conhecidos por seu sistema dual de organização social: a sociedade é dividida em dois clãs (Áwawẽ e Po’reza’õno), que se alternam em funções rituais e políticas, incluindo casamentos e competições simbólicas.

Diferentemente dos Bororo, cuja tradição é ligada ao pantanal e às planícies, os Xavante são um povo de floresta seca, caçadores, corredores, praticantes de rituais de resistência física. Um dos mais emblemáticos é o wapté mnhõnõ, rito de passagem dos meninos para a vida adulta, que inclui o aprendizado da língua, do canto, da guerra e dos princípios de solidariedade comunitária. Trata-se de um processo formativo profundo, que integra corpo, espírito e memória coletiva.
Historicamente, os Xavante enfrentaram graves episódios de violência e remoção forçada, especialmente durante os projetos de integração territorial do regime militar, como a construção da BR-158 e o programa de colonização do cerrado. Apesar disso, mantiveram forte resistência e reconstruíram suas aldeias, sua língua e suas tradições. São hoje referência em processos de revitalização cultural e organização comunitária.

Contribuição à identidade mato-grossense
Bororo e Xavante não são apenas partes da história de Mato Grosso, mas são pilares dela. Seus territórios, saberes e experiências moldaram as paisagens, as toponímias, os modos de viver e até mesmo a iconografia do estado.
A presença desses povos resiste não apenas no plano físico, mas também no simbólico: estão em festas, em nomes de cidades, em narrativas orais, e — mais recentemente — em políticas públicas de educação indígena, saúde e preservação ambiental.
Entretanto, essa importância nem sempre foi reconhecida. Durante séculos, seus territórios foram invadidos, suas culturas ignoradas e suas contribuições apagadas dos currículos escolares. A mudança começou a ocorrer mais visivelmente a partir dos anos 1980, com o fortalecimento dos movimentos indígenas, a Constituição de 1988 e a emergência de intelectuais indígenas que passaram a escrever sua própria história.
