O enigma de Percy Fawcett: cidade perdida, mapas secretos e um desaparecimento nunca resolvido

Documento do século XVIII narra descoberta de ruínas enigmáticas na Bahia e inspirou a última expedição do coronel Fawcett, desaparecido em 1925 no Xingu. Pesquisadora brasileira pode estar prestes a desvendar parte desse mistério secular.

No acervo da Biblioteca Nacional do Brasil repousa um dos documentos mais controversos da historiografia brasileira: o Manuscrito 512. Datado de 1754, ele narra a suposta descoberta de uma cidade perdida de origem desconhecida no interior da Bahia por bandeirantes que seguiam os rastros das lendárias Minas de Muribeca.

A cidade, descrita com colunas de pedra, inscrições indecifráveis e uma arquitetura de inspiração greco-romana, teria sido abandonada séculos antes e jamais reencontrada.

O documento permaneceu esquecido por décadas, até ser redescoberto no século XIX. Sua linguagem barroca e detalhes vívidos despertaram o fascínio de exploradores e cientistas. Mas foi no século XX que o Manuscrito 512 ganhou status de mito, ao inspirar ninguém menos que o coronel Percy Harrison Fawcett, um dos últimos aventureiros da era vitoriana.

Coronel Percy Harrison Fawcett | Créditos: Domínio Público

Desde o período colonial, as Minas de Muribeca são citadas como um local lendário situado em uma região inóspita do interior brasileiro. A história remonta a Diogo Alvares Correia, um europeu que chegou ao Brasil depois de naufragar sua uma caravela na costa brasileira, nas proximidades da Bahia.

Sendo o único sobrevivente do acidente, passou a conviver com os indígenas locais e até se casou com uma bela indígena chamada Paraguaçu. Depois disso, assumiu o nome Caramuru e teve vários filhos. Um destes, supostamente o tal Muribeca, passou a andar com os índios Tapuias. Foi numa dessas andaças que descobriu as tais minas, que eram riquíssimas em ouro, prata e outras pedras preciosas.

A coroa Portuguesa se interessou pelo local e Robério Dias, filho de Muribeca, viu nisso uma oportunidade de ascender socialmente. Ele então disse que revelaria a localização das minas em troca do titulo de nobreza.

Mas, enquanto levava os soldados portugueses para o local, Robério os convenceu a mostrar o documento e acabou descobrindo que ele não concedia um titulo de nobreza, e sim um de menor importância. Indignado, ele negou-se a revelar o localização das minas e acaba sendo preso. Algum tempo depois, acabou morrendo, levando para o túmulo as coordenadas desse impressionante lugar.

O Manuscrito 512, supostamente escrito por um bandeirante anônimo, relata uma expedição que, depois de anos de andança pelo sertão buscando tais minas, teria encontrado as ruínas de uma civilização desconhecida.

O relato descreve a cidade com arcos, estátuas, ruas pavimentadas, símbolos talhados em pedra e até mesmo uma “inscrição em caracteres que ninguém pôde decifrar”. Embora nenhum estudo arqueológico moderno tenha confirmado a existência da cidade, o documento gerou uma corrente de especulação e mistério que atravessou séculos.

Durante o Império, Dom Pedro II chegou a se interessar pelo manuscrito, e o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) o publicou oficialmente. Apesar disso, a maioria dos historiadores considera o relato de veracidade duvidosa, talvez uma junção de observações reais com extrapolações fantasiosas.

O coronel que buscava a Cidade Z

No começo do século XX, inspirado pelo manuscrito e por outros relatos indígenas e coloniais, o britânico Percy Fawcett iniciou uma série de expedições ao Brasil. Ele acreditava na existência de uma civilização perdida avançada, que chamou de Cidade Z, e que estava supostamente localizada entre o Xingu e a Serra do Roncador, na região centro-norte de Mato Grosso.

Fawcett era veterano do exército britânico, cartógrafo experiente e colaborador da Royal Geographical Society. Participou do mapeamento da fronteira entre Brasil e Bolívia e manteve contatos com figuras como Arthur Conan Doyle, criador do Sherlock Holmes, que se inspirou nos relatos de Fawcett para escrever O Mundo Perdido (1912).

Coronel Percy Fawcett (esquerda), em Cáceres | Créditos: Editora Record / Reprodução

Em 1925, acompanhado de seu filho Jack e do amigo Raleigh Rimell, Fawcett partiu de Cuiabá rumo ao leste, em direção ao Xingu. Ele deixou cartas indicando que não queria resgates caso desaparecesse.

A última carta conhecida, datada de 29 de maio de 1925, foi enviada de um posto de contato com os Kalapalos, na região do Alto Xingu. Depois disso, nunca mais foi visto.

Nos anos seguintes, mais de 13 expedições de resgate foram organizadas nas décadas seguintes, envolvendo militares, jornalistas e aventureiros. Nenhuma teve sucesso. Pelo contrário: algumas terminaram em morte ou desaparecimento.

Ninguém sabe ao certo o que aconteceu com Fawcett, mas, entre as principais teorias sobre o seu desaparecimento, destacam-se:

  • Assassinato por indígenas hostis, após ter ultrapassado limites sagrados ou agido de forma imprudente;
  • Morte por doença tropical, fome ou exaustão, em região inóspita e isolada;
  • Vontade deliberada de desaparecer, vivendo entre alguma tribo isolada;
  • Execução por garimpeiros ilegais ou traficantes da época, temendo exposição de suas atividades;
  • Teorias esotéricas, que sugerem que Fawcett teria entrado em contato com civilizações subterrâneas ou interdimensionais.

O indigenista Orlando Villas-Bôas, que teve contato direto com os Kalapalos na década de 1940, recolheu depoimentos sobre o fato. Segundo ele, os indígenas teriam confessado o assassinato de Fawcett e informado a localização exata de sua ossada. Mas um dentista que tratara o coronel, no Rio de Janeiro, desmentiu a tese, confirmando que aquela arcada não pertencia ao inglês, mas sim a um nativo.

Orlando Villas-Bôas (centro) e a suposta ossada de Fawcett | Créditos: Wikimedia Commons

Tempos depois, os próprios kalapalos disseram que um grupo de três homens brancos passaram pela aldeia deles, seguindo para o leste. Eles foram alertados para não avançar mais, mas ignoram. Dias depois, os indígenas observaram fumaça de fogueiras em local proibido e, então, não viram mais os homens.

Segundo alguns relatos, eles poderiam ter sido mortos por outro grupo indígena ou abandonados à própria sorte. No entanto, os próprios Kalapalos também dizem que não sabem exatamente o que aconteceu, e que Fawcett foi “engolido pela floresta”. O mistério permanece.

O sumiço de Fawcett gerou fascínio internacional e foi amplamente noticiado na imprensa da época. Até hoje, estudiosos, arqueólogos e místicos continuam interessados no caso. Em 2005, o jornalista David Grann investigou o tema no livro Z: A Cidade Perdida, adaptado para o cinema em 2016. A história de Fawcett influenciou diretamente a criação do personagem Indiana Jones, segundo os próprios roteiristas da franquia.

Percy Fawcett, interpretado por Charlie Hunnam no filme “Z: A Cidade Perdida” | Créditos: Reprodução

Curiosamente, poucos mato-grossenses sabem que o herói mais famoso dos filmes de aventura tem raízes reais fincadas no solo do estado. Percy Fawcett foi visto pela última vez nas terras indígenas do Xingu, nas bordas do Parque Nacional do Xingu, dentro do atual território mato-grossense.

Verdade ou mentira?

Hoje, o Manuscrito 512 é considerado um documento histórico autêntico, mas com conteúdo possivelmente misturado entre realidade, mito e desejo de glória dos bandeirantes. Arqueólogos não encontraram evidências concretas da cidade descrita. Por outro lado, estudos recentes mostram que civilizações complexas e urbanizadas existiram na Amazônia antes da colonização europeia, como mostram os geoglifos e estruturas de terra identificadas por satélite.

Assim, não se pode descartar completamente a hipótese de que o manuscrito contenha referências reais, mal interpretadas ou exageradas. Ele segue como uma das principais “pistas” para exploradores modernos.

E exatamente um século depois do desaparecimento de Fawcett, a selva ainda guarda seus segredos. O Manuscrito 512 permanece intacto em sua caixa de arquivo. Os Kalapalo seguem vivendo no Xingu. E as ruínas descritas continuam não encontradas.

Mas isso pode estar prestes a mudar.

Maíra Ventura, pesquisadora especializada em expedições históricas e documentos coloniais, encontrou recentemente pistas esquecidas sobre a última rota de Fawcett e prepara uma investigação que pode mudar tudo o que sabemos sobre esse enigma.

Referências Bibliográficas

BIBLIOTECA NACIONAL. Manuscrito 512. RJ: Acervo Histórico, 1754.
GRANN, David. Z: A Cidade Perdida. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
VILLAS-BÔAS, Orlando. Depoimentos ao Museu do Índio. Rio de Janeiro: FUNAI, 1983.
HEMMING, John. Red Gold: The Conquest of the Brazilian Indians. Harvard University Press, 1978.
SOUZA, Mário. As minas de Muribeca e o mito da cidade perdida. Revista de História, USP, 2018.
LÍDIA, A. C. Fawcett e a busca pela Cidade Z. Boletim da Sociedade Brasileira de Arqueologia, 2020.

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Matheus Prado
Matheus Pradohttps://matheusprado.com.br/
Matheus Prado é professor, escritor, cineasta e crítico de cinema. Atualmente cursa um mestrado e Letras, com foco em Literatura. Acredita que a vida é um mar profundo e que devemos nos aventurar além da superfície. Escreveu e dirigiu dois longas-metragens e vários curtas.

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