Ao longo da história, as mulheres sempre estiveram presentes nas grandes transformações sociais, mesmo quando seus nomes foram esquecidos pelos livros. Em cada comunidade, aldeia, vila ou cidade, foram elas que mantiveram a cultura viva, transmitiram saberes, lutaram pelo cuidado dos filhos, preservaram o conhecimento da terra, educaram gerações e, muitas vezes, sustentaram estruturas inteiras em silêncio.
A força feminina está na base das sociedades brasileiras. E em Mato Grosso, isso não é diferente.
Maíra Ventura nasceu como símbolo dessa força. Sua criação não foi apenas uma escolha literária, mas uma afirmação histórica: mulheres sempre estiveram na linha de frente da resistência, da sabedoria e da transformação. É por isso que, neste site, não podemos deixar de reconhecer aquelas que realmente moldaram o estado de Mato Grosso com coragem, inteligência e sensibilidade.
Mais do que heroínas individuais, elas representam um coletivo de vozes femininas que atravessam séculos. São lideranças quilombolas, parteiras, professoras, jornalistas, camponesas e anônimas que, apesar de não ocuparem cargos de poder, exerceram papéis decisivos na construção da identidade mato-grossense.
Durante séculos, a narrativa oficial deu destaque a bandeirantes, militares, governadores e eclesiásticos… quase sempre homens. No entanto, uma investigação mais cuidadosa revela um conjunto poderoso de mulheres que marcaram profundamente a identidade mato-grossense. Vamos conhecer algumas dessas figuras e refletir sobre o apagamento histórico que as silenciou.
Tereza de Benguela
Talvez a mais simbólica liderança feminina de Mato Grosso, Tereza de Benguela comandou, por cerca de duas décadas no século XVIII, o Quilombo do Quariterê, localizado na região do Vale do Guaporé. Após a morte de seu companheiro, José Piolho, Tereza assumiu a liderança da comunidade formada por negros e índios que fugiam da escravidão.
Sob sua liderança, o quilombo criou um sistema de defesa, um parlamento interno e até uma forma de governo com divisão de poderes. Tereza resistiu até 1770, quando foi capturada por tropas portuguesas. Segundo documentos, morreu presa.
Atualmente, o Dia Nacional de Tereza de Benguela é celebrado em todo o Brasil no dia 25 de julho, mas poucos mato-grossenses conhecem sua história.

Bernardina Maria Elvira Rich
Nascida em Cuiabá em 1872, Bernardina Rich foi a primeira professora negra concursada do estado. Em uma época marcada pelo racismo intenso e por barreiras sociais, ela fundou uma escola particular, colaborou com revistas e jornais literários e defendeu o direito à educação de meninas pobres e filhos de ex-escravizados.
Bernardina participou ativamente da vida intelectual de Cuiabá no final do século XIX e início do XX, sendo uma das poucas mulheres negras a conquistar esse espaço. Também foi membro da Federação Mato-Grossense pelo Progresso Feminino.

Maria Dimpina Lobo Duarte
Nascida em Cuiabá, em 1891, Maria Dimpina foi a primeira funcionária pública estadual do sexo feminino em Mato Grosso. Com dedicação exemplar à educação, fundou escolas, dirigiu instituições de ensino e escreveu crônicas em defesa da formação cidadã.
Sua atuação garantiu avanços significativos para as mulheres no serviço público, sendo autora de propostas que beneficiavam funcionárias em condição de deslocamento por razões familiares.

Maria de Arruda Müller
Nascida em 1886, também em Cuiabá, Maria de Arruda Müller foi uma educadora, escritora, poetisa e uma das primeiras mulheres a fazer parte da Academia Mato-Grossense de Letras. Ainda em 1916, fundou com um grupo de mulheres a revista A Violeta, voltada à produção literária e educacional feminina.
Sua obra influenciou diretamente o pensamento sobre o papel da mulher na sociedade mato-grossense, e ela foi reconhecida por defender o direito das mulheres ao conhecimento, à leitura e à participação cultural.

Mulheres anônimas
A história de Mato Grosso não se construiu (e ainda não se constrói) apenas com nomes que estão em registros oficiais. Milhares de mulheres que viveram no campo, na mata, no cerrado, nas margens dos rios ou nas periferias urbanas também moldaram esse estado.
Mulheres que criaram filhos sozinhas, que lavraram a terra, que mantiveram viva a cultura oral, que ensinaram com pouco ou nenhum recurso, que protegeram a natureza, que resistiram à violência. Elas são parte da nossa identidade, mesmo que não estejam nos livros.
E por que elas foram esquecidas? A resposta não está apenas na história, mas na forma como a história é contada. Durante muito tempo, o conhecimento oficial foi produzido por homens, nas grandes cidades, com foco em guerras, políticas e conquistas materiais.
O trabalho silencioso, afetivo, comunitário e educacional das mulheres foi visto como menor. Nomes femininos eram considerados “pouco relevantes” e, muitas vezes, omitidos propositalmente. Mas isso está mudando. Graças a historiadoras, pesquisadoras e ativistas, começamos a redescobrir essas trajetórias.
Trazer essas mulheres à luz é um ato de justiça histórica, mas também um movimento de construção de identidades mais completas e verdadeiras. Quando jovens aprendem que o passado também foi moldado por mulheres, passam a reconhecer suas próprias potências.
Que cada escola, museu, arquivo ou sala de aula em Mato Grosso possa abrir espaço para essas heroínas invisíveis. Que mais meninas possam se inspirar não apenas em Maíra Ventura, mas em Terezas, Antonietas, Zuleikas e tantas outras.
Afinal, não existe história sem mulheres.