Missões religiosas em Mato Grosso: entre a catequese e o apagamento cultural dos povos indígenas

Ordens religiosas atuaram como agentes de acolhimento e também de imposição cultural junto aos povos originários. Suas ações moldaram o território, mas deixaram cicatrizes na memória indígena.

Durante os séculos XVII ao XX, Mato Grosso foi palco de uma intensa atuação missionária. Ordens religiosas como os jesuítas, mercedários, franciscanos e, posteriormente, os salesianos atuaram em diversas regiões do estado, especialmente junto a povos indígenas.

Essas missões religiosas se apresentavam como espaços de acolhimento e educação, mas também funcionavam como instrumentos do projeto colonial de conversão, controle e homogeneização cultural. Isso porque a missão de catequese tinha como objetivo principal a conversão dos povos indígenas ao cristianismo, o que envolvia não apenas a religião, mas também a substituição de línguas nativas, práticas culturais, organização social e visão de mundo.

Ao mesmo tempo, essas missões registraram parte importante da história de diversos povos e ajudaram a preservar dados linguísticos, etnográficos e geográficos que são valiosos até hoje para a história e a antropologia.

Missão Jesuítica de Santana de Chapada | Céditos: Moacyr Freitas / Fundação Cultural de Mato Grosso

Atuação jesuíta em Mato Grosso

No início do período colonial, os jesuítas foram os primeiros a estabelecer aldeamentos em terras mato-grossenses, especialmente a partir de 1748, quando se intensifica a ocupação portuguesa com a criação da Capitania de Mato Grosso. Um exemplo é a Missão dos Padres da Companhia de Jesus em Vila Bela da Santíssima Trindade, que atuaram entre os povos Paresí, Nambikwara e Bororo.

As reduções jesuíticas buscavam agrupar os povos indígenas em aldeamentos estruturados conforme o modelo europeu, com escola, igreja, atividades agrícolas e catequese diária. No entanto, muitos desses povos resistiram à imposição de novos costumes e à perda de autonomia.

Mas por volta de setembro de 1759 por ordem do Marquês de Pombal, os jesuítas foram expulsos do Brasil através de um decreto real. O objetivo da expulsão era centralizar o poder de Portugal e reduzir a influência da Igreja, especialmente da Companhia de Jesus, sobre a colônia. Dessa forma, parte do processo de catequização foi abandonado.

Mapa de uma redução jesuítica | Créditos: reprodução

No final do século XIX, já na República e com a retomada da política de civilização dos índios, os salesianos se estabeleceram em Mato Grosso por meio do acordo com o governo federal. Seu principal foco foi a atuação junto aos Bororo, fundando a Missão Salesiana de São José em Meruri (1895) e, posteriormente, a Missão de Sangradouro (1900).

Essas missões implantaram escolas internas, internatos, oficinas de ofícios e igrejas, criando um sistema educacional voltado para a assimilação dos valores cristãos e ocidentais. Por um lado, isso garantiu o registro de parte da cultura Bororo (com gramáticas, dicionários e estudos etnográficos); por outro, houve uma ruptura com formas tradicionais de educação e espiritualidade.

Muitos defensores das missões religiosas afirmam que elas evitaram massacres promovidos por fazendeiros e autoridades locais. De fato, em vários momentos da história de Mato Grosso, as missões representaram uma forma de proteção contra a violência e o extermínio de povos inteiros. Entretanto, é preciso compreender que essa proteção estava condicionada à aceitação de uma nova cultura.

A lógica missionária não previa o diálogo entre culturas, mas sim a substituição da “cultura indígena” pela “civilização cristã”. Muitas línguas foram perdidas, rituais proibidos, estruturas sociais desfeitas e memórias apagadas sob a justificativa da salvação das almas.

A permanência das missões

Atualmente, muitas missões religiosas continuam atuando em territórios indígenas de Mato Grosso, embora com abordagem mais sensível e dialógica. Em várias comunidades, padres e irmãs auxiliam em projetos sociais, educativos e de saúde. Ainda assim, o histórico da catequese colonial segue como um capítulo complexo da relação entre Igreja, Estado e povos originários.

Não há dúvidas de que a atuação missionária em Mato Grosso foi fundamental na formação de comunidades, cidades e redes de educação. No entanto, também foi marcada pelo apagamento de saberes, línguas e formas de vida.

Estudar esse processo com honestidade histórica é um passo necessário para reconhecer as vozes silenciadas e promover uma relação mais justa com a memória de todos os povos que compõem esse grande estado chamado Mato Grosso.

Referências Bibliográficas

CASTRO, Eduardo Viveiros de. O nativo relativo. Mana, v. 8, n. 1, p. 113-148, 2002.
MENDONÇA, Maria Auxiliadora. Missões Salesianas e os Bororo em Mato Grosso: entre a catequese e o etnocídio. Goiânia: UFG, 2008.
MONTEIRO, John Manuel. Negros da terra: Índios e bandeirantes nas origens de São Paulo. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
RIBEIRO, Darcy. Os índios e a civilização. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
ZARTH, Paulo. Catequese e Cultura: a evangelização indígena nas missões do Brasil colonial. Revista Brasileira de História das Religiões, n. 8, 2015.

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