GUERRA DO PARAGUAI: o que aconteceu em Mato Grosso durante o maior conflito da América Latina?

Muito antes dos grandes confrontos no sul, o conflito teve início em terras pantaneiras, marcando profundamente a história mato-grossense com perdas humanas, destruição e heroísmo ignorado pela narrativa oficial.

Entre 1864 e 1870, a América do Sul foi palco de uma das guerras mais sangrentas de sua história: a Guerra do Paraguai. Também conhecida como Guerra da Tríplice Aliança, esse conflito envolveu Brasil, Argentina e Uruguai contra o Paraguai de Solano López.

Muito se fala sobre os campos de batalha no sul do continente, mas o que muitos desconhecem é que Mato Grosso, que ainda não tinha sido dividido em dois estados, foi o primeiro território brasileiro invadido e um dos mais duramente atingidos, tanto em perdas humanas quanto em abandono político.

Em dezembro de 1864, tropas paraguaias atravessaram o rio Paraguai e invadiram a então província de Mato Grosso. O ataque começou pela cidade de Corumbá, importante centro estratégico na região pantaneira. Com poucos soldados e recursos escassos, a guarnição brasileira foi rapidamente vencida. Os invasores então seguiram para outras localidades, como Nioaque, Coxim, Miranda e o Forte de Coimbra.

Também atacaram a Colônia Militar de Dourados, onde um pequeno grupo de combatentes resistiu bravamente. Um dos episódios mais lembrados foi a resistência heroica do tenente Antônio João Ribeiro e seus poucos soldados, que enfrentaram centenas de invasores antes de serem massacrados.

Uma frase do tenente tornou-se símbolo de bravura:

Sei que morro, mas meu sangue e o dos meus companheiros servirá de protesto solene contra a invasão do solo da Pátria.

Solano López, ao invadir Mato Grosso, pretendia assegurar sua influência sobre a navegação nos rios da Bacia do Prata e controlar as rotas comerciais da região. A invasão ocorreu antes mesmo de uma declaração formal de guerra, num movimento ousado que surpreendeu o Império.

Para ele, a expansão territorial do Paraguai era parte de um projeto de afirmação nacional diante dos interesses imperialistas do Brasil e da Argentina. Mas o ataque a Mato Grosso teve um efeito contrário: despertou a reação da Tríplice Aliança, que uniria forças para esmagar o pequeno, porém militarizado, país vizinho.

A reação do Império do Brasil à invasão do estado, no entanto, foi tardia e marcada pela precariedade. O isolamento geográfico de Mato Grosso, a ausência de vias eficientes de comunicação com o centro do poder e a negligência do governo fizeram com que a reação militar só chegasse com força considerável dois anos depois.

A chamada Expedição de Mato Grosso, liderada pelos coronéis Carlos de Morais Camisão e Manoel Pedro Drago, empreendeu uma marcha penosa pelas matas, enfrentando doenças, falta de suprimentos e ataques esparsos. A expedição foi marcada por fome, escorbuto, e pela morte de centenas de soldados, inclusive do próprio coronel Camisão.

Enquanto isso, civis e milícias locais organizavam resistências improvisadas. A cidade de Corumbá, ocupada pelos paraguaios desde 1865, só foi retomada em junho de 1867 por forças brasileiras. Foi uma reconquista simbólica e sofrida, que demonstrou o esforço dos próprios moradores da região, em contraste com a lentidão do governo central.

Entre os envolvidos na resistência estavam também povos indígenas como os Guató, cuja contribuição é pouco lembrada, mas fundamental. Atuar como canoeiros, guias e batedores foi uma das formas pelas quais essas populações resistiram e contribuíram para a defesa do território, mesmo depois de séculos de marginalização e expropriação.

A memória desses episódios permanece viva em monumentos, nomes de ruas e tradições locais, mas raramente ganha destaque nos livros didáticos.

A guerra deixou marcas profundas em Mato Grosso. Aldeias foram destruídas, cidades saqueadas, e famílias dizimadas. O comércio ruiu, o abastecimento escasseou, e a população sofreu com doenças tropicais agravadas pela presença de tropas. O impacto foi tão grande que muitas localidades levaram décadas para se recuperar e algumas jamais se reergueram totalmente.

Batalha na Guerra do Paraguai | Créditos: Reprodução

As marcas da guerra

A reconquista de Corumbá é hoje celebrada como feriado cívico regional, mas a memória coletiva nacional muitas vezes ignora que foi ali, em território mato-grossense, que o Brasil começou a sangrar.

A narrativa dominante da Guerra do Paraguai tende a se concentrar nas campanhas do sul, como Humaitá ou Lomas Valentinas, relegando a Campanha do Mato Grosso a um papel secundário. No entanto, ela foi crucial para o desenrolar do conflito e para compreender as fragilidades estruturais do Império.

A guerra também contribuiu para redefinir a geopolítica do centro-oeste. A necessidade de melhor integração com o restante do país levou, posteriormente, à ampliação das rotas fluviais e à atenção militar sobre a fronteira oeste. Ainda assim, os reflexos da negligência daquele período se mantiveram por muito tempo e reverberam até hoje na maneira como se enxerga Mato Grosso a partir do sudeste.

Os fantasmas da guerra ainda circulam por essas terras e Maíra Ventura sabe disso. Não apenas os fantasmas dos soldados tombados, mas também os dos civis esquecidos, dos indígenas não homenageados, dos lugares cujos nomes desapareceram nos mapas.

Conhecer esse capítulo da história é resgatar uma verdade incômoda: a guerra não passou apenas pelos generais e pelos palácios. Ela cruzou os pantanais, invadiu malocas, consumiu sertões e deixou rastros que o tempo ainda não apagou.

Referências Bibliográficas

DORATIOTO, Francisco. Maldita Guerra: nova história da Guerra do Paraguai. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
GOMES, Flávio dos Santos. Histórias de quilombolas. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006.
GORENDER, Jacob. A escravidão reabilitada. São Paulo: Ática, 1990.
RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

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Matheus Prado
Matheus Pradohttps://matheusprado.com.br/
Matheus Prado é professor, escritor, cineasta e crítico de cinema. Atualmente cursa um mestrado e Letras, com foco em Literatura. Acredita que a vida é um mar profundo e que devemos nos aventurar além da superfície. Escreveu e dirigiu dois longas-metragens e vários curtas.

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