A origem de Mato Grosso: histórias apagadas, fronteiras disputadas e um passado indígena milenar

Mais do que um território estratégico, Mato Grosso é resultado de uma formação histórica complexa, marcada por povos originários, exploração colonial, guerras de fronteira e um esquecimento que ainda persiste.

Poucas regiões do Brasil carregam em si tantos mitos fundadores, disputas de fronteiras e narrativas apagadas quanto o estado de Mato Grosso. Conhecido hoje por sua imensidão territorial, suas paisagens únicas, sua agricultura e sua diversidade de povos originários, o território mato-grossense tem uma história que começa muito antes da criação do estado em si.

Entender como nasceu Mato Grosso é caminhar entre sertões, trilhas de bandeirantes, guerras e povos ancestrais que moldaram o coração da América do Sul.

A ocupação portuguesa na região começou no início do século XVIII, quando bandeirantes paulistas cruzaram o então inexplorado oeste em busca de ouro e pedras preciosas. Essas expedições, que inicialmente visavam apenas a exploração mineral, acabaram por fundar núcleos urbanos e estabelecer rotas que se tornariam decisivas para o domínio territorial.

A Fundação de Cuiabál | Créditos: Moacyr Freitas

A fundação de Cuiabá, em 1719, é símbolo desse momento. A cidade nasce como um entreposto minerador, mas rapidamente se torna um ponto estratégico para a ocupação portuguesa no interior do continente.

Contudo, antes da chegada dos colonizadores, a região já era habitada por diversos povos indígenas, como os Bororos, os Parecis, os Xavantes, os Kayapós e tantos outros, que dominavam não só o território, mas também seus rios, ciclos e saberes. Esses povos viviam de forma autônoma, com sistemas complexos de organização social, cosmologia própria e intensa relação com a terra.

O avanço bandeirante representou não apenas uma ocupação física, mas um choque cultural, seguido de expropriação, escravização e violência.

Durante o período colonial, o território do atual Mato Grosso estava subordinado à Capitania de São Paulo, mas sua crescente importância estratégica e econômica levou à sua elevação à categoria de Capitania independente em 1748.

Esse ato político tinha motivações claras: reforçar a presença portuguesa frente às ameaças espanholas nas regiões vizinhas e estabelecer o controle sobre o ouro recém-descoberto. A capital da nova Capitania foi transferida para Vila Bela da Santíssima Trindade, construída com luxo e pompa em meio ao sertão, numa tentativa de reafirmar a presença da Coroa.

A cidade de Vila Bela foi também palco de um dos momentos mais curiosos da história local: a efêmera opulência barroca em pleno coração do interior. Durante décadas, foi a capital de Mato Grosso, até ser substituída por Cuiabá em 1835. Hoje, suas ruínas contam silenciosamente a história de uma ambição colonial que desafiou o isolamento geográfico e a resistência indígena.

Ruínas da Igreja da Santíssima Trindade em Vila Bela | Créditos: Reprodução

Com a Independência do Brasil em 1822 e a posterior formação do Império, Mato Grosso passou a ocupar posição geopolítica ainda mais relevante. Sua proximidade com as fronteiras tornou-se foco de atenção militar.

A Guerra do Paraguai (1864–1870), por exemplo, teve reflexos diretos sobre o território mato-grossense. Tropas paraguaias invadiram o sul do estado, atacaram Corumbá e a Colônia Militar de Dourados, o que motivou o envio de reforços por parte do Império brasileiro — ainda que com lentidão e negligência, revelando a constante marginalização da região pelas elites do litoral.

Com o fim da escravidão e a proclamação da República, surgiram novos projetos de ocupação para o centro-oeste brasileiro. O ciclo da borracha na Amazônia e a expansão da agricultura incentivaram o desenvolvimento de rotas terrestres e ferroviárias que afetaram diretamente Mato Grosso. No entanto, a vastidão do território e a precariedade da infraestrutura mantiveram a região em condição periférica por boa parte do século XX.

A divisão do estado em 1977, com a criação de Mato Grosso do Sul, foi um capítulo importante dessa trajetória. Motivada por razões administrativas e políticas, a separação trouxe consequências para a identidade mato-grossense, redesenhando seu mapa e sua economia. Cuiabá permaneceu como capital de um estado que, mesmo fragmentado, seguia sendo um dos maiores em extensão territorial do Brasil.

Mas o nascimento de Mato Grosso não pode ser contado apenas a partir das decisões políticas e militares. Ele também se deu nos barracões dos garimpeiros, nas aldeias dos povos originários, nas lavouras dos imigrantes, nos quilombos que resistiram ao apagamento. Ele nasceu da mistura entre o cerrado, o pantanal e a floresta amazônica. Nasceu dos rios que cruzam a terra em silêncio, levando consigo memórias milenares.

Hoje, ao pensar em Mato Grosso, é preciso lembrar que sua história não começa com bandeirantes, nem termina com agronegócio. Ela é feita de múltiplas camadas — indígenas, africanas, ibéricas e migrantes. E em cada uma dessas camadas há luta, sabedoria, perdas e renascimentos.

Maíra Ventura, enquanto personagem que atravessa o tempo e os territórios, reconhece isso. Em sua jornada, ela pisa sobre uma terra que pulsa passado. Uma terra que ainda busca contar sua história completa.

Referências Bibliográficas

CARVALHO, José Murilo de. A formação das almas: o imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
GORENDER, Jacob. A escravidão reabilitada. São Paulo: Ática, 1990.
RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
SILVA, Francisco d’Almeida. História de Mato Grosso: da ocupação do território à formação dos municípios. Cuiabá: EdUFMT, 2004.
TOLEDO, Luiz Alberto Moniz Bandeira. O Brasil, os Estados Unidos e a Amazônia: uma história de interesses e ambições. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

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Matheus Prado
Matheus Pradohttps://matheusprado.com.br/
Matheus Prado é professor, escritor, cineasta e crítico de cinema. Atualmente cursa um mestrado e Letras, com foco em Literatura. Acredita que a vida é um mar profundo e que devemos nos aventurar além da superfície. Escreveu e dirigiu dois longas-metragens e vários curtas.

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