Desde o século XVI, uma febre tomou conta do imaginário europeu: a existência de uma cidade mítica, riquíssima, oculta nas selvas da América do Sul. Batizada como El Dorado (O Dourado), ela inspirou expedições suicidas, confrontos coloniais, desaparecimentos misteriosos e uma busca interminável por glória e fortuna.
Mas de onde nasceu essa ideia? E por que até mesmo no século XX ela ainda arrebatava corações como o de Percy Fawcett, um dos exploradores mais famosos da história? A verdade é que tudo começou com uma cerimônia indígena…
Em 1536, a expedição do conquistador espanhol Gonzalo Jiménez de Quesada encontrou os muíscas (ou chibchas), um povo que habitava os altiplanos da atual Colômbia. Eles contavam com um ritual extraordinário: ao ser coroado, o novo chefe tribal era coberto com pó de ouro e, em uma canoa, lançava joias preciosas no lago Guatavita, em oferenda aos deuses.
A imagem do “homem dourado” – ou El Hombre Dorado – rapidamente se transformou em algo muito maior: uma cidade, depois um império e, por fim, um continente inteiro coberto de ouro aos olhos gananciosos dos europeus.

Durante o século XVI, as histórias foram só crescendo. Dessa, logo a existência da tal cidade de El Dorado já tinha se tornado uma unanimidade entre os colonizadores espanhóis e portugueses. O continente sul-americano parecia esconder riquezas infinitas, e a floresta amazônica era o grande palco desse teatro de ilusões.
Algumas das expedições mais dramáticas da história ocorreram nesse período:
- Sebastián de Belalcázar abandonou suas tropas para procurar El Dorado no norte da Colômbia. Nada encontrou.
- Gonzalo Pizarro, irmão de Francisco Pizarro, partiu de Quito, no Equador, em 1540 com milhares de homens. Após atravessar os Andes e perder quase todo seu exército, voltou derrotado.
- Francisco de Orellana, que havia se separado do grupo de Pizarro, seguiu um curso desconhecido e acabou descendo o rio Amazonas até o Atlântico, em 1542. Ele relatou ter enfrentado mulheres guerreiras — que inspiraram o nome do rio.
Essas histórias, ainda que exageradas ou distorcidas, serviram para reforçar o fascínio pela selva como um local inexplorado, perigoso e cheio de segredos.

Já no século XX, quando o mundo acreditava que tudo já havia sido mapeado, surgiu o britânico Percy Harrison Fawcett. Oficial do exército e cartógrafo, Fawcett desenvolveu uma teoria audaciosa: existiria uma civilização antiga e avançada escondida na região do Xingu, no Brasil. Ele a chamava de Cidade Z.
Fawcett inspirou-se em relatos indígenas, documentos antigos, ruínas enigmáticas e até em lendas que ouviu de povos originários do Brasil. Em suas cartas, ele descrevia traços de civilizações organizadas no coração da Amazônia, com estruturas de pedra, estradas e sistemas agrícolas.
Em 1925, partiu com seu filho Jack e um amigo, rumo ao interior de Mato Grosso… e nunca mais foi visto. Esse desaparecimento alimentou ainda mais o mito.
Mais de 100 expedições tentaram reencontrar Fawcett ou descobrir vestígios da misteriosa Cidade Z. Muitos também desapareceram ou retornaram sem sucesso. Alguns chegaram a acusar tribos indígenas de tê-lo assassinado, mas nunca houve provas. Para muitos povos originários, ele foi apenas mais um estrangeiro desrespeitando o território sagrado.

Vale destacar que Percy Fawcett não foi o único explorador que desapareceu. Serge Debru, franco-americano, desapareceu no Brasil em 1970 enquanto buscava pistas da Cidade Z. O norueguês Lars Hafskjold também sumiu em 1997 em uma expedição entre Rondônia e Mato Grosso.
Ambos estavam obcecados pela ideia de que havia algo escondido no “coração verde” da América. Suas histórias, como a de Fawcett, se perderam na imensidão da floresta.
O que a ciência diz hoje
Durante muito tempo, a ideia de civilizações complexas na Amazônia foi descartada pelos cientistas. A floresta era vista como um ambiente hostil demais para abrigar sociedades densamente organizadas. Mas isso começou a mudar nas últimas décadas.
Pesquisas arqueológicas, lideradas por cientistas brasileiros e estrangeiros, vêm revelando vestígios de assentamentos planejados, valas defensivas, caminhos elevados e campos agrícolas. Um dos achados mais relevantes são os geoglifos do Acre e as chamadas “cidades circulares” no sul do Amazonas.
Além disso, registros orais de etnias como os kuikuro (descendentes dos antigos povos do Xingu) falam de grandes aldeias e rotas comerciais que existiam antes da chegada dos europeus. Essas descobertas não confirmam a existência de El Dorado, mas apontam para uma verdade que a lenda ocultou: a Amazônia foi, sim, lar de civilizações indígenas complexas, criativas e sustentáveis.

Mas a pergunta ainda ecoa: será que El Dorado existiu mesmo? Ou foi apenas um espelho onde os colonizadores projetaram sua ganância?
A grande verdade é que história da busca por El Dorado é, acima de tudo, uma lição sobre como os mitos moldam decisões reais. De como a ignorância sobre as culturas originárias levou à destruição de povos inteiros e de como ainda hoje carregamos os ecos dessas fantasias nos livros, nas narrativas populares e nas expedições que continuam tentando encontrar o que talvez nunca tenha existido.
Talvez a cidade dourada não estivesse nas pedras, e sim no brilho do conhecimento ancestral que os povos originários mantêm há séculos.