No coração do Mato Grosso, um dos territórios mais biodiversos e culturalmente ricos do Brasil, vive uma lenda que atravessa gerações: a da serpente gigante. Segundo relatos orais dos povos indígenas que habitam a região, essa criatura colossal dorme nas profundezas dos rios ou se arrasta silenciosamente pela floresta, guardando saberes antigos, protegendo territórios sagrados ou punindo os que ameaçam o equilíbrio da natureza.
Mas o que há de verdade nessa história? Seria apenas mito ou haveria algum fundamento real por trás das descrições assustadoras e detalhadas? A ciência, a antropologia e a zoologia podem nos ajudar a entender por que tantas culturas relatam a existência de serpentes colossais em seus territórios.
A lenda da Boiuna
Entre os povos da Amazônia, há diversas versões da lenda da “cobra grande”, também conhecida como Boiuna ou Mãe-d’água. No Xingu, ela é associada a entidades aquáticas que vivem nos rios, com corpos extensos como igarapés e olhos brilhantes como fogo.
Em algumas versões, a serpente é um espírito guardião dos rios; em outras, uma criatura vingativa que destrói canoas, afunda barcos e se alimenta de seres humanos.

A palavra “Boiuna” vem do tupi-guarani e significa “cobra escura” (mboi = cobra, una = escura). Em algumas culturas, ela também é chamada de “minhocão” ou associada a uma anaconda mitológica, com tamanhos que variam entre 10 e 100 metros.
Há também uma lenda relacionada ao rio Cuiabá, chamada Minhocão do Pari. Essa criatura mitológica, segundo o folclore, é uma cobra gigante, semelhante a uma sucuri, que vive nas profundezas do rio e causa terror entre os pescadores. O Minhocão do Pari vira canoas, devora pescadores e provoca desmoronamentos nas margens do rio.
Mas de onde surgem essas descrições tão específicas? Será que nossos ancestrais estavam apenas criando uma história de terror ou havia algo real, por trás do mito?
Gigantes reais do passado
Em 2009, um grupo de paleontólogos descobriu na Colômbia os restos fossilizados de uma serpente que viveu há cerca de 60 milhões de anos: a Titanoboa cerrejonensis. Ela podia atingir 14 metros de comprimento, pesar mais de 1 tonelada e tinha a largura de um pneu de caminhão.
A Titanoboa viveu em florestas tropicais semelhantes à Amazônia atual, e sua existência prova que serpentes gigantes não são apenas criaturas da imaginação popular. Embora extinta, ela mostra que o imaginário de serpentes colossais tem um pé na realidade evolutiva.
Ainda hoje, a Amazônia é lar da sucuri (Eunectes murinus), a maior serpente da América do Sul. Pode atingir 9 metros e pesar 200 kg, sendo totalmente aquática e caçando presas grandes como capivaras e jacarés. Apesar de não representar risco para humanos em condições normais, a imagem dessa serpente imensa nadando nos rios pode ter alimentado o medo e o mito.

Serpentes nas culturas indígenas
Na visão cosmológica de muitos povos do Xingu, como os Kamayurá, Kuikuro e Yawalapiti, as serpentes gigantes não são apenas animais, mas entidades espirituais. Elas podem simbolizar a força da natureza, a ancestralidade, a sabedoria subterrânea e também o caos.
Essas serpentes costumam estar associadas às águas profundas, ao subsolo, aos ciclos de renascimento e destruição. Em muitas histórias, é preciso “acalmar” ou “respeitar” a serpente para garantir a harmonia da aldeia e o sucesso da pesca ou das colheitas.
Além disso, é comum o uso do medo simbólico como ferramenta educativa. Crianças são ensinadas desde cedo a respeitar os rios e florestas, e a lenda da serpente serve como alerta: “Não desafie os limites da natureza, ou a serpente despertará.”
Explicações naturais
Alguns pesquisadores sugerem que a lenda da serpente gigante pode estar relacionada a fenômenos naturais mal compreendidos, como:
- Tremores de terra subterrâneos que causam sons semelhantes a rugidos;
- Deslizamentos de terra nas margens dos rios, que parecem grandes movimentos;
- Movimentação de grandes sucuris na água, que pode gerar ondas repentinas;
- Sons noturnos de animais, como o bugio ou o jauru, que emitem ruídos aterrorizantes.
Na ausência de explicações científicas acessíveis, é natural que comunidades ancestrais atribuam esses fenômenos a forças espirituais ou criaturas gigantes.
Mas aí surge a dúvida: a ciência respeita os mitos?
E a resposta é sim. Cada vez mais, antropólogos e cientistas têm aprendido a valorizar o conhecimento tradicional. Muitas lendas carregam informações codificadas sobre o ambiente, a segurança e a sobrevivência.
A lenda da serpente gigante do Xingu pode ser vista como uma memória coletiva, uma forma ancestral de compreender e proteger o território. Embora não existam evidências atuais de cobras com mais de 15 metros vivendo na Amazônia, a crença continua viva porque carrega significados profundos: respeito à natureza, temor à ganância e valorização do sagrado.
Portanto, mesmo que não seja uma criatura real nos moldes da Titanoboa, a serpente do Xingu é real em outro sentido: ela existe na memória, nos cantos, nos rituais e na sabedoria ancestral.