Você certamente sabe que o Pantanal é muito mais que um vasto alagado: é um ecossistema singular, onde a riqueza da fauna e flora se sustenta graças a ciclos naturais de cheias e secas.
No entanto, nas últimas décadas, esse equilíbrio milenar tem sido ameaçado por uma combinação de mudanças climáticas aceleradas e intensificação das atividades humanas. O cenário atual exige atenção urgente, pois sem alterações nas práticas e políticas, o bioma corre risco real de colapso ecológico.
Pesquisas recentes apontam que o Pantanal está sofrendo secas mais intensas e prolongadas, acentuadas pelo aquecimento global. Um estudo da World Weather Attribution revelou que as condições quentes, secas e ventosas que causaram os incêndios de junho de 2024 ficaram até quatro vezes mais prováveis e 40% mais intensas devido às alterações climáticas já observadas no planeta.
Isso significa que o bioma enfrenta não apenas incêndios fora da estação, mas queimadas com intensidade recorde. Em alguns meses, foram registradas mais de 440 mil hectares consumidos pelo fogo, o equivalente à metade do tamanho da Bélgica
Esse cenário também se agrava com a redução das chuvas. Desde 1985, o Pantanal perdeu em torno de 61% de sua lâmina hídrica, o volume essencial que alaga campos e alimenta rios e lagoas. A falta de água prolongada transforma a paisagem em um ambiente seco, propício à disseminação de incêndios, e impede a recuperação natural após os eventos de seca.
E não é apenas a paisagem: plantas hibernam, répteis morrem, peixes desaparecem e aves migratórias não retornam — um efeito dominó que atinge toda a teia da vida.

Atividades humanas
Além das mudanças climáticas, pressões diretas do uso da terra agravam ainda mais a situação. A pecuária extensiva e a expansão da monocultura de soja, comuns no entorno do Pantanal, provocam desmatamento, remoção da mata ciliar e construção de drenagens, o que reduz a conectividade entre rios e zonas alagadas, essenciais para a manutenção.
Novos projetos de infraestrutura, como a dragagem de trechos do rio Paraguai para a construção da hidrovia, também representam ameaça.
Pesquisadores alertam que tais intervenções podem reduzir a planície de inundação, secar áreas do Pantanal e aumentar o risco de grandes incêndios, integrando-se às mudanças climáticas e ao desmatamento.
Isso ocorre porque a hidrovia interfere no ciclo das águas, diminui a retenção natural no terreno e catalisa a expansão da fronteira agrícola.
O fogo, neste contexto, passou de instrumento tradicional de manejo para um perigo ambiental. Em 2020, por exemplo, incêndios incontroláveis consumiram mais de 30 mil hectares de matas ciliares — áreas-chaves para a proteção dos cursos d’água — e afetaram diretamente espécies vulneráveis como a arara-azul, o tuiuiú e o cervo-do-pantanal.
O uso inadequado do fogo, aliado à seca e ao calor, resultou numa devastação que pode levar até 50 anos para a recuperação da vegetação nativa.

Por que isso importa?
O Pantanal é considerado a maior planície úmida contínua do mundo, com aproximadamente 35% de sua área no Mato Grosso. Esse bioma oferece serviços ambientais cruciais: regulação de clima, recarga de aquíferos, biodiversidade ímpar (mais de 650 espécies de aves, 130 de mamíferos, 260 de peixes e quase 100 de répteis).
A interrupção desse ciclo natural não afeta apenas plantas e animais: afeta também comunidades ribeirinhas, povos indígenas, pescadores e criadores tradicionais que dependem das enchentes para sobreviver.
Além dos impactos ecológicos e sociais, há uma dimensão ética no descaso com o Pantanal. A carta publicada na revista BioScience em 2022 alertou para “decisões sutis mas legais” que, juntas, podem conduzir a um “colapso ecológico, econômico e social”.
Daqui a 30 anos, se mantido o ritmo atual de desmatamento, mudanças climáticas e infraestruturas, corremos o risco de transformar o Pantanal num ecossistema irreversível — semelhante a regiões metade áridas, metade agrícolas, destituídas da sua riqueza original.
Entender essa história é vital. O Pantanal é vulnerável, sim, mas ainda é capaz de se regenerar. Conhecer a ciência por trás da crise não é só aprender termos técnicos: é se conectar com o futuro de um dos cenários mais belos e importantes do Brasil.
