Imagine-se atravessando a densa floresta, cercado por ruídos de animais e o farfalhar constante das folhas. Em meio a esse verde sem fim, surgem rumores sobre ruínas cobertas pelo mato, mapas antigos com cidades douradas, e relatos de luzes misteriosas que guiam “os escolhidos” para uma civilização escondida.
A chamada Cidade Perdida de Mato Grosso parece saída de um filme de aventura — e, de certa forma, foi: inspirou desde livros como O Mundo Perdido, personagens como Indiana Jones e até as aventuras de Maíra Ventura em A Biblioteca da Eternidade.
Mas… e na vida real? Existiu (ou existe) mesmo uma cidade perdida no meio do Brasil?
Ao longo dos séculos, exploradores, cientistas e aventureiros tentaram responder essa pergunta. Um dos casos mais famosos é o do coronel britânico Percy Fawcett, que desapareceu em 1925 enquanto buscava uma civilização que ele chamava de “Z”, possivelmente localizada entre o Xingu e a Chapada dos Parecis. A história virou mito, mas trouxe o mundo inteiro para o centro-oeste brasileiro.

O mais curioso é que vários elementos que inspiraram Fawcett tinham base em documentos históricos reais. Cartas de bandeirantes dos séculos XVII e XVIII relatavam ruínas de pedra, com colunas e estruturas incomuns para os padrões indígenas conhecidos na época. Há registros de supostos “mapas espanhóis” descrevendo cidades escondidas, repletas de templos e tesouros.
A ciência moderna entrou na busca com outras ferramentas. Desde a década de 1990, pesquisadores brasileiros e estrangeiros, usando imagens de satélite, escavações e tecnologia LIDAR, descobriram redes complexas de aldeias interligadas por estradas na região amazônica e no norte de Mato Grosso.
Esses assentamentos, construídos por povos como os Kuikuro e outros grupos do tronco Karib, desafiam a ideia de que a Amazônia sempre foi uma região “virgem” e despovoada.
As estruturas mapeadas revelam engenharia sofisticada: valas defensivas, sistemas de saneamento, agricultura organizada e geoglifos geométricos com funções (possivelmente) cerimoniais. Tudo isso indica a existência de sociedades urbanizadas, embora diferentes dos padrões europeus de cidade.
Então, a Cidade Perdida de Fawcett existiu? Não com esse nome. Mas os indícios apontam que ele estava parcialmente certo. As “cidades” da floresta talvez não fossem feitas de ouro, mas de saberes, estruturas complexas e organizações sociais que a arqueologia começa a revelar.
As aventuras de Maíra Ventura não estão tão distantes assim da realidade. Em seus livros, ela percorre ruínas na Chapada dos Guimarães e em regiões remotas do Araguaia e do Xingu, locais onde, hoje, a ciência encontra traços de civilizações antigas soterradas pelo tempo e pela mata. A diferença é que Maíra carrega mapas imaginários; os cientistas carregam GPS e imagens de radar.
E o que aprendemos com tudo isso?
Que Mato Grosso tem uma história muito mais rica e complexa do que nos ensinaram nos livros didáticos. Que há segredos ainda escondidos sob o solo e que, talvez, o maior tesouro dessas cidades perdidas não seja o ouro, mas o conhecimento sobre quem nós fomos.
Enquanto a floresta continuar sussurrando seus segredos, sempre haverá exploradores dispostos a escutar com coração.