Para muitos povos indígenas de Mato Grosso, insetos como abelhas sem ferrão e formigas são indicadores do equilíbrio ambiental, ingredientes medicinais, parceiros na agricultura e até provas de coragem. Tomando como base a etnobiologia, este artigo explora duas dimensões fundamentais desse relacionamento ancestral entre os insetos e a cultura indígena.
Meliponicultura indígena
Os povos originários da Amazônia e do Pantanal, como Kaiabi, Terena, Umutina e outros, mantêm vínculos milenares com abelhas sem ferrão (tribo Meliponini). Estudos etnoentomológicos com os Kaiabi, por exemplo, identificaram 28 etnoespécies, com méis distintos em sabor, cor e uso terapêutico — do tratamento de catarro até remédios espirituais —, todos derivados do manejo cuidadoso dos ninhos naturais.
Na comunidade Umutina, mais ao sul do estado, esse conhecimento serve a múltiplos propósitos: alimentar, curar, e mesmo prever mudanças ambientais, como a chegada das chuvas, através da observação dos comportamentos coloniais das abelhas.

A meliponicultura tradicional não apenas sustenta comunidades, mas também conserva a biodiversidade local, protegendo colônias em ninhos construídos em troncos ou panelas cerâmicas, como descrito por etnógrafos e pesquisadores.
O uso medicinal do mel é diverso: desde o reconhecimento das propriedades antimicrobianas naturais até aplicações para a cicatrização de feridas. Entre os Kayapó e Borari, por exemplo, o mel é misturado com resinas e usados como anti-inflamatório e cicatrizante, demonstrando uma sabedoria que dialoga com a farmacologia moderna.
Dor e força ritual
Além das abelhas, as formigas também ocupam lugar central na cultura indígena. Um dos casos mais emblemáticos acontece entre os Maués (Amazônia), que criam luvas trançadas com centenas de formigas-tucandeiras (Paraponera cf. clavata), cuja picada é comparada a um tiro, como parte de um ritual de passagem masculina.
Esse ciclo doloroso, também presente entre os Maué do Mato Grosso, é visto como um teste de resistência, coragem e preparação para os desafios da vida adulta.

As formigas-saúva, empregadas em remédios populares e como bioindicadores ecológicos, também são centrais aos saberes indígenas da etnia Umutina. Observando-se as estações de formigueiros, é possível antecipar períodos de seca, fertilidade agrícola e até mesmo doenças.
O uso medicinal das formigas e seus produtos é antigo: em algumas aldeias, emplastros feitos de formigas esmagadas servem para fechar feridas, técnica que emprega a poderosa força física desses insetos em benefício humano.
Essas práticas demonstram uma profunda compreensão da ecologia: os insetos não são apenas recursos utilitários, mas sinais vivos, componentes da paisagem e indicadores de saúde ambiental — um saber que a ciência agora chama de conhecimento ecológico.
A relevância e os riscos
Esses saberes envolvendo insetos refletem muito mais que usos práticos: revelam uma sabedoria ecológica viva, transmitida oralmente ao longo de gerações. Mas há riscos. A desflorestação, o uso de agrotóxicos e o desaparecimento de ninhos naturais ameaçam tanto a sobrevivência dos insetos quanto a continuidade cultural desses povos.
Projetos de meliponicultura em aldeias, apoiados por instituições como EMBRAPA e universidades, têm buscado fortalecer a autonomia e a preservação ambiental. No entanto, esse esforço depende de políticas públicas reais e de reconhecimento institucional do valor dos saberes tradicionais.