Muito antes da chegada dos portugueses, o que hoje chamamos de Mato Grosso já era uma terra viva, ocupada por dezenas de povos indígenas com culturas, línguas e modos de vida profundamente diversos. Eram sociedades com cosmovisões complexas, sistemas sociais sofisticados e uma conexão ancestral com a natureza — e que, em muitos casos, continuam a existir e resistir até hoje.
Entre os principais povos originários do território mato-grossense estão os Bororo, Xavante, Kayabi, Nambikwara, Terena, Pareci, Rikbaktsa, Kayapó, Bakairi, entre outros. Cada um desses grupos desenvolveu formas singulares de organização, arquitetura, espiritualidade e relação com o ambiente, moldando o que podemos chamar de “alma ancestral” da região.
Os Bororo, povo do qual Maíra Ventura descende, são conhecidos por seu sistema social circular, tanto literal quanto simbólico. Suas aldeias tradicionais têm formato de círculo, com as casas dispostas ao redor de uma praça central onde ocorrem os rituais.
Essa disposição reflete sua cosmologia, que valoriza o equilíbrio, o pertencimento coletivo e a interligação entre os mundos físico e espiritual. Seus rituais funerários, com cantos, pinturas e performances complexas, revelam uma noção profunda de ancestralidade e continuidade da vida.
Já os Xavante, também presentes em várias áreas do estado, são célebres por seus rituais de passagem, pela forte organização clânica e pelo espírito guerreiro. Sua cosmologia é marcada por mitos de origem ligados à transformação do mundo e por um rigoroso código de educação dos jovens, que envolve provas físicas, ensinamentos morais e espiritualidade. Em sua língua, da família Jê, cada palavra carrega camadas de sentido ligadas à natureza e à coletividade.
Os Pareci (ou Haliti-Paresi), habitantes tradicionais do Chapadão do Parecis, cultivam há séculos um sistema agrícola refinado, com destaque para o plantio de mandioca, batata-doce e milho. Seus conhecimentos sobre o solo, as chuvas e o ciclo lunar orientam as decisões agrícolas — um saber que desafia os mitos da “inexistência de tecnologia” entre os povos originários.
Há ainda os Nambikwara, povo estudado pelo antropólogo Claude Lévi-Strauss em sua obra Tristes Trópicos. Ele observou entre eles uma estrutura social marcada por alianças flexíveis, trocas simbólicas e uma comunicação refinada — mesmo com uma demografia reduzida à época. Sua língua, de fonologia complexa, faz parte da diversidade linguística que sempre existiu em Mato Grosso, onde ainda hoje são faladas dezenas de línguas indígenas.
Antes da colonização europeia, esses povos ocupavam o território de maneira equilibrada, adaptando-se aos biomas diversos — Cerrado, Pantanal e Floresta Amazônica — sem destruir seus ecossistemas. Construíram casas com arquitetura bioclimática, desenvolveram sistemas de manejo sustentável, criaram narrativas orais que funcionavam como bibliotecas de saberes. Viviam em uma rede de alianças, trocas e disputas entre si, mas sem jamais colocar em risco a base da vida: a terra.
A chegada dos portugueses, porém, alterou radicalmente esse cenário. A partir do século XVIII, com a invasão bandeirante em busca de ouro, inicia-se um ciclo brutal de escravização, deslocamento forçado e catequese. Povos inteiros foram exterminados, enquanto outros foram empurrados para áreas cada vez mais afastadas. As missões jesuíticas, ainda que registrassem parte da cultura indígena, serviram muitas vezes como instrumentos de assimilação forçada.
Mas nem tudo foi silenciado. Muitos desses povos resistiram — e ainda resistem. Os Bororo, por exemplo, mantêm seus rituais vivos. Os Xavante continuam suas cerimônias de iniciação. Os Paresi redescobrem sua língua com a ajuda de escolas bilíngues. Em diversas aldeias, jovens lideranças reivindicam território, educação de qualidade e respeito às suas tradições. A resistência indígena em Mato Grosso é uma história viva.
Reconhecer quem eram (e quem são) os povos originários de Mato Grosso é fundamental para reconstruir a história do estado sob um olhar mais justo. Não se trata apenas de arqueologia ou memória, mas de resgate da identidade, de reparação e de futuro.
Ao cruzar terras ancestrais e ouvir vozes silenciadas, Maíra Ventura aprende e ensina que a verdadeira história do Brasil não começou com o descobrimento. Ela já pulsava em aldeias circulares, em rituais noturnos, em sementes plantadas com sabedoria milenar.
