A diversidade humana é fascinante e muitas vezes, invisível aos nossos olhos até que uma pergunta aparentemente simples nos provoque. Um desses questionamentos, frequentemente ouvido em tom de curiosidade (e, por vezes, de ignorância), é:
Por que alguns povos indígenas quase não têm pelos no corpo?
Embora pareça uma mera característica estética, esse traço físico revela uma história profunda de adaptação ao ambiente, evolução biológica e complexidade genética.
Nosso corpo é resultado de milhares de anos de interações entre herança genética e contexto ambiental. Os pelos corporais, por exemplo, cumprem funções biológicas importantes: ajudam a regular a temperatura, a proteger contra radiação solar e até a sentir o ambiente ao redor.
No entanto, a quantidade e distribuição desses pelos variam muito entre as populações humanas. E essa variação não é aleatória: ela responde a pressões seletivas — ou seja, às exigências do ambiente sobre os organismos vivos ao longo do tempo.

Entre os povos indígenas das regiões tropicais das Américas, como a Amazônia ou o Cerrado brasileiro, é comum observar indivíduos com menor quantidade de pelos no corpo. Isso inclui pernas, braços, peitoral e até mesmo o rosto, no caso de barba e bigode. Essa característica, longe de ser “ausência” ou “deficiência”, é fruto de adaptações sucessivas a um ambiente quente, úmido e denso — onde ter muitos pelos poderia, na verdade, ser um incômodo fisiológico.
Em climas úmidos e quentes, como os encontrados na maior parte da floresta amazônica, a necessidade de dissipar o calor corporal é constante. Os pelos em excesso dificultam essa tarefa, pois retêm calor e impedem a evaporação eficiente do suor. Assim, ao longo de milhares de gerações, os indivíduos com menor quantidade de pelos tiveram vantagens adaptativas: sofriam menos com o calor, resistiam melhor às infecções cutâneas (comuns em ambientes úmidos) e conseguiam lidar melhor com a transpiração constante.
Esse processo de seleção natural é bem descrito nos estudos de evolução humana. Eva Jablonka e Marion Lamb, por exemplo, apontam em Evolution in Four Dimensions que a evolução dos seres humanos não se dá apenas por genes, mas também por fatores epigenéticos e culturais. A redução dos pelos pode ter sido reforçada não só por pressões ambientais, mas também por preferências culturais internas aos grupos indígenas, como a valorização de corpos mais limpos, leves e integrados ao clima local.

Outros pesquisadores, como Eduardo Góes Neves, destacam em suas obras que os povos amazônicos desenvolveram culturas altamente sofisticadas de relação com o corpo e a natureza. Muitas comunidades praticam depilações rituais, usam resinas vegetais para extrair pelos ou simplesmente adotam um estilo de vida que favorece a ausência de pelos visíveis. O corpo, nesses casos, não é apenas um organismo biológico, mas também um símbolo social e espiritual.
Além disso, a menor densidade de pelos está relacionada a padrões genéticos próprios das populações ameríndias. Estudos genômicos apontam que variantes genéticas presentes entre os povos originários das Américas influenciam características como crescimento capilar, espessura dos fios e pigmentação da pele. Uma dessas variantes está no gene EDAR, que afeta desde a formação dos dentes até a estrutura das glândulas sudoríparas e a distribuição de pelos corporais.
Vale lembrar que o padrão europeu de corpo peludo — inclusive como símbolo de masculinidade — é apenas um entre muitos. O modelo ocidental não pode ser utilizado como medida para toda a humanidade. Ao contrário, é fundamental reconhecer que o corpo indígena é resultado de uma história própria, profundamente conectada ao ambiente e à cultura em que se desenvolveu. Ignorar isso é reproduzir estereótipos coloniais e racistas que ainda hoje permeiam o imaginário social.
Manuela Carneiro da Cunha, em História dos Índios no Brasil, ressalta que os povos indígenas devem ser compreendidos a partir de suas cosmologias, saberes e práticas. Seus corpos não são “menos desenvolvidos” por terem menos pelos. São, sim, a expressão plena de um processo evolutivo que funcionou com excelência em seu contexto. São corpos que caminham leveza na selva, que resistem ao calor, que expressam identidade e pertencimento.
A observação da menor quantidade de pelos entre os povos indígenas brasileiros deve, portanto, ser transformada em admiração — e não em espanto. Esses traços físicos carregam uma história milenar de sabedoria adaptativa, de integração ao ambiente e de respeito à própria biologia. E quando Maíra Ventura, nossa heroína de ficção, caminha pela floresta sem o incômodo dos pelos em excesso, ela carrega também esse legado silencioso — um corpo ancestral que evoluiu em sintonia com a terra.