“Olhos puxados” é uma expressão que faz parte do vocabulário popular, geralmente usada para descrever pessoas com uma característica anatômica marcante: a prega epicântica, um vinco de pele que cobre parcialmente o canto interno dos olhos.
Presente em muitos povos asiáticos, essa característica também é muito comum entre os indígenas das Américas — inclusive no Brasil. Mas de onde vem essa semelhança? Por que tantos indígenas brasileiros têm traços parecidos com os povos do Leste Asiático? A resposta está na interseção entre genética, evolução e história das migrações humanas.
A prega epicântica, também chamada de epicanto, não é uma exclusividade de nenhuma etnia específica. Ela pode aparecer em diferentes graus de intensidade em indivíduos de diversas origens, inclusive entre europeus e africanos. No entanto, sua ocorrência é especialmente prevalente entre os povos do norte e do leste da Ásia, nas populações indígenas da Sibéria, e nas comunidades indígenas do continente americano. Isso não é coincidência.
A antropologia moderna e os estudos genéticos têm mostrado que os primeiros povos a habitar as Américas chegaram ao continente atravessando a ponte terrestre de Bering, há cerca de 15 a 30 mil anos, vindos da Ásia. Assim, os traços genéticos e anatômicos dessas populações ancestrais foram herdados por seus descendentes ao longo dos milênios — incluindo os povos indígenas brasileiros.

Mas essa semelhança não se limita à origem comum. Há também hipóteses evolucionistas sobre a função do epicanto. Durante muito tempo, os cientistas acreditaram que essa característica teria evoluído como uma adaptação ao frio extremo e aos reflexos da neve — uma proteção natural contra o vento gelado e a luz intensa que reverbera em ambientes nevados, comuns na Sibéria e na Ásia Central. Segundo essa linha de pensamento, os olhos mais fechados e a prega de pele funcionariam como um “óculos natural”, protegendo a córnea e reduzindo a evaporação lacrimal.
Contudo, essa explicação apresenta limitações, já que povos com epicanthus também habitam regiões quentes e tropicais. Indígenas amazônicos, por exemplo, vivem em ambientes úmidos, quentes e densamente florestados, sem qualquer presença de neve. Assim, surgiram outras teorias, como a da adaptação à alta exposição solar. Segundo essa hipótese, a pálpebra com epicanto ajuda a proteger os olhos da radiação ultravioleta, filtrando parte da luz intensa. Isso explicaria sua presença em povos de áreas desérticas, de savana ou tropicais — ambientes com altos níveis de incidência solar. No entanto, assim como a teoria do frio, essa também não é conclusiva.

O que parece mais plausível hoje é que o epicanto seja um traço multifuncional, influenciado por múltiplos fatores evolutivos e ambientais, mas também por uma herança genética consolidada.
Genes como o EDAR, por exemplo, têm sido associados à presença da prega epicântica e a outras características morfológicas, como a espessura dos cabelos, a forma dos dentes incisivos e até o padrão de glândulas sudoríparas. Esses genes provavelmente sofreram seleção natural entre populações ancestrais asiáticas, se fixaram em seus genomas, e foram levados às Américas com as ondas migratórias pré-históricas.
Ainda que a ciência não tenha um consenso absoluto sobre a função adaptativa da prega epicântica, ela é hoje reconhecida como uma característica normal da diversidade humana. Entretanto, essa diversidade muitas vezes foi alvo de preconceito e exotização. A forma como olhamos para os “olhos puxados” diz mais sobre nossa construção cultural do que sobre qualquer dado biológico.
Ao longo da história, o olhar europeu padronizou o corpo humano dentro de uma estética específica, e tudo o que fugia disso era considerado inferior, exótico ou misterioso. Os traços indígenas, asiáticos e africanos foram frequentemente alvos de estereótipos, e até hoje, esses traços são utilizados como forma de diferenciação, muitas vezes de maneira pejorativa.

Para povos indígenas brasileiros, como os Bororo, os Xavante ou os Kayapó, os traços físicos são parte de uma identidade ancestral rica em cosmologias, rituais e sabedorias. Reduzir essa diversidade a um simples “olhar puxado” é uma forma de apagar o contexto profundo desses povos.
A pergunta “por que os indígenas têm olhos puxados?” não deve ser encarada apenas como uma curiosidade estética. É, na verdade, uma porta de entrada para discussões mais amplas sobre migração humana, identidade, biologia e história cultural. Compreender que essa característica tem raízes profundas e multifatoriais ajuda a desconstruir preconceitos e valorizar a diversidade da espécie humana.
Portanto, da próxima vez que você se deparar com alguém com esse tipo de olhar — seja em um retrato antigo de um cacique, no rosto de uma criança na aldeia, ou na heroína de um livro — lembre-se de que há ali muito mais do que uma forma física. Há história, ciência, ancestralidade e resistência. E há também beleza: uma beleza que não se explica apenas com palavras, mas com respeito.